Se me resta alguma sobriedade nos pensamentos, eu gostaria de relatar alguns fatos que me impregnaram a mente, nestes últimos dias que passaram.
Os pássaros não estão cantando, ou emitindo qualquer som, e não há uma brisa leve soprando no lado de fora da minha janela. Não é num final de tarde ensolarado em que escrevo, e não há qualquer vestígio de cena de cinema, quando o protagonista escreve uma carta de amor. Na verdade, os dias têm estado nublados e ao meu redor, sinto uma densa superfície de cargas negativas, que marejam-me os olhos toda vez que penso nas coisas que deveriam ser e não são.
Escrevo isso com um certo pesar, ao lembrar que você não é, e nunca será meu. Eu simplesmente não entendo a maneira como as coisas são realizadas, e, especialmente, não entendo a sua maneira de viver. Talvez seja por isso que não consigo crescer. Se eu ao menos pudesse entender… Quem sabe, dessa forma, eu poderia superar toda essa situação, e colocar todas as coisas, que você bagunçou, de volta em seus lugares. Mas não, você precisa ser esse mistério todo, essa profundeza de segredos tão abertos para mim, que fazem-me perder o rumo e acreditar que não sejam verdade. Você me confunde.
Eu revi todos os termos e fatos e tudo pareceu certo e no seu devido lugar. Voltando no tempo e respondendo algumas questões que deixei em branco, graças à algumas clarezas que tive, eu consegui entender boa parte das coisas que não entendia antes. Mas, meu bem, ao pronunciar os certos motivos de você não poder me querer, tudo pareceu tão perdido e equivocado. Devo admitir que, fico até receosa de que suas palavras não passem de meras desculpas aveludadas, ao invés de serem as verdades duras que eu dei preferência ouvir.
Os seus olhos me perseguiram noite passada. Não foram os sonhos, muito menos os pesadelos. Foi bem antes disso. Quando costumo me afogar de tanto pensar antes de dormir. Eu nem consegui esclarecer outras dúvidas, porque toda vez que eu começava a pensar em alguma coisa, seus olhos me convidavam a lembrar de você, e eu repassei algumas lembranças, assisti à flashbacks e por fim, não consegui dormir. Também chorei um pouco. É vergonhoso dizer isso, mas todo dia, eu tento transbordar um pouco de você. Quero dizer, todos os dias, eu choro um pouquinho de cada vez, na esperança de que neste choros, contenham partes de você que eu possa deixar para trás.
“Ne me quitte pas, mon cher.” Mas você não o fez. Você me deixou, eu sei, dos últimos dias para cá, tem um abismo cada vez maior me separando de você. As placas que foram divididas, e que me impedem de chegar até você, distanciam-se cada vez mais, e se eu pular, cairei. Por isso, se eu continuar tentando chegar até você, não terei outra alternativa à não ser cair. E isso já está fora dos meus planos. Eu sei que é você. Mas eu já cheguei ao fundo do poço vezes demais por você, e eu não quero ter de passar por isso outra vez. Por isso, meu querido, eu já me decidi. Vai demorar, eu estou ciente, mas eu darei um basta nestas tentativas desesperadas de chegar até você.
Darei meia volta, e seguirei em frente. Embora eu tenha sempre achado que “em frente” significava ir na sua direção, eu estou percebendo, cada dia mais um pouco, que significa um giro de 180 graus, e ir me distanciando. Afinal, você nem ao menos está me esperando do outro lado do abismo. Você já seguiu, outra vez, para outro caminho, e eu só estava esperando que você voltasse. Mas acho que desta vez, não haverá volta. Eu realmente espero que não tenha, porque estou cansada de acreditar nos “finais definitivos” que nos dou, e toda vez que você aparece, de nada valeram. Na verdade, eu espero te ver vários dias, e não sentir mais nada do que eu costumo sentir. Eu não quero que você suma de vez, apesar de doer, por enquanto, estar com você.
Mas eu garanto, que não vai doer mais.
(Ana F.)
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