quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma garrafa no mar

Eu e você lançamos uma garrafa ao mar, se lembra?
Foram dias difíceis, costumávamos nos esconder por detrás das árvores perto da sua casa, e pensar que ninguém nos enxergava enquanto contávamos quantas voltas o mundo deu ao nosso redor. E nossos demônios costumavam me puxar pelos pés, e você pelas mãos ou pela gola da camisa. Nós achávamos que nada era mais importante que as estrelas, e que as borboletas no meu estômago eram sintoma de nervosismo. Nós nunca percebemos que tínhamos mais do que o desejo de engolir o mundo; nós nunca percebemos que éramos mais que um guerreiro e sua fiel escudeira. Na verdade, nós nunca nos enxergamos direito. Mas você se lembra da garrafa que lançamos ao mar?
Nós não sonhávamos mais, como sonhávamos antes, e decidimos fazer uma promessa. Decidimos guardá-la dentro do oceano, porque nunca fomos bons com promessas, um de nós sempre as quebrava, ou as esquecia. Então nós simplesmente a atiramos, porque não faria mal se um dia, nós a esquecêssemos. Prometemos que se o mundo não parasse de girar, daríamos a volta nele, juntos. Hoje parece boba, brincadeira de criança, mas quando você me deu a mão e nossos olhos seguiram a garrafa boiando no mar, até que ela desaparecesse, eu achei que daquela vez, a promessa seria real.
Mas, você não se lembra mais que lançamos uma garrafa ao mar.
Você, do outro lado do país e eu aqui, esperando ventos melhores. Faz tempo que não saio desta cama. Acho que nem sei se você ainda está neste mundo. Talvez você já tenha dado a volta nele, sozinho ou com outro alguém. Talvez você esteja moribundo como eu. Talvez esteja tão saudável quanto uma criança que corre para o parque da cidade. A realidade, é que eu não sei mais onde está você. Na última vez que te vi, você estava no aeroporto, indo para o outro lado do país. E eu, nem ao menos pude te seguir. E vivi poucos anos bem vividos, sem você. Hoje fazem 40 anos que não te vejo, eu continuo achando que éramos para ter sido mais. Mas você foi embora, e eu queria não ter vivido com tanta pressa de crescer.
Hoje os aparelhos que me mantém respirando pararam de funcionar por segundos, e eu achei que teria que ir embora sem dizer adeus, assim como você fez. Eu fiquei com medo, sempre achei que você voltaria para me ver. Mas hoje, eu percebi que você não virá. Nós nunca fomos bons de promessas, e aquela última, lançada ao mar, nunca foi mais especial que as outras. Aquela última, por ter sido a última, deveria ter me ensinado que alguns amores da sua vida, não foram feitos para serem seus, e que você era um deles. Mas eu nunca aprendi. Eu apenas percebi, hoje, que você não se lembra de nós. E agora, meu amor, eu não estou mais com medo de morrer.

(Ana F.)

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