quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Minha velha morreu e não me deixou


A Morte é realmente uma filha da puta. É triste, é nostálgica, melancólica, não tem nada de bom. Pelo menos, eu ainda não descobri nada de bom nela. É que ela vem de surpresa, de qualquer forma. Mesmo que você esteja com os dias contados, diagnóstico na mão, ela vem de surpresa. Você não vai saber o milésimo exato que ela virá. Certo dia, feliz da vida, depois de conversar na calçada com o seu Zé, vai preparar o jantar pro filho que ainda mora com você, e vai dormir. No dia seguinte, vai ao banheiro, e não tem ninguém em casa, porque o filho foi à uma festa de um amigo. De repente, você cai. Sem saber ao certo por quê. Você dorme sem querer. E vez-ou-outra, não acorda mais. E causa um escarcéu: deixou contas pra pagar, e nem tem dinheiro. Fica no hospital, esperando uma esperança, mas no seu caso, não virá. E os amigos e a família choram. Até a irmã que sumiu com seu dinheiro, aparece ligando pra sua filha, querendo saber dos detalhes, e dando ódio no pessoal. As netas vão algumas vezes ao hospital, visitar você, e aguentar firme pra não chorar, porque entendem que a vó não quer deixar ninguém triste. Ela não tem culpa. A Morte é que é uma filha da puta. Ela já está ali, esperando mais um pouco, porque não tem graça te levar sem fazer confusão.
E aí, algumas semanas depois, te dá um resfriado de nada, naquele quarto gelado, ninguém te vê por dentro. E vai te corroendo, e você vai morrendo mais, e a Morte ri da sua cara. E te dá um aperto no pulmão, o ar vai acabando, o batimento cardíaco vai caindo, e você tá dizendo adeus mentalmente, porque não tem forças para gritar. E pensa nas pessoas que estiveram com você, e sem querer rola uma lágrima no rosto, de saudade. Já dá saudade, porque você não vai mais poder tocá-las. E você fecha os olhos, pela última vez.
Não para. Agora, há lágrimas em todo lugar. Gente de preto, abraçando alguns estranhos-conhecidos, água salgada escorrendo dos olhos. Tem um corpo no meio da sala, e há quem prefira não vê-lo. Todo mundo reza sua prece, alguns calados porque não sabem o que rezar, ou não sabem como. O corpo cai, junto com flores e punhados de terra, e é coberto por mais quilos dela. É o fim da cerimônia, a Morte já está de partida, porque já terminou com o seu trabalho. E as pessoas também vão, lentamente voltando às suas rotinas. Algumas esquecem, outras lembram todos os dias. E de vez em quando, faz uma falta danada. A gente acha que acostumou e não é verdade.
Ontém eu senti uma saudade danada da minha avó. Eu chorei de madrugada, porque não dá mais pra chorar em paz. E tive que chorar em silêncio. Eu lembrei das tardes, as quais eu não dava valor, e que na verdade, era uma das melhores coisas da minha vida. Lembrei do café escondido que ela me dava, e que minha mãe desconfiava. Lembrei dos lanches, dos almoços, dos abraços, dos sorrisos, dos “come, menina!” que ela me lançava quando eu comia pouco. Eu lembrei da felicidade que minha vó tinha. Lembrei de como ela era feliz. Minha vó foi uma das mulheres mais gentis que vi na vida. Se existe um prêmio Nobel na “terra daqueles-que-já-se-foram”, ela é quem deveria ganhar. Ontém eu chorei bem abafado no meu travesseiro, e tive que escrever isso, porque não quero causar nostalgias na minha mãe, e no meu pai. Eu queria que eles soubessem o quanto minha vó é importante para mim, e o quanto ela faz falta. Mas dá um medo. 
A minha avó era incrível, e eu queria que o mundo soubesse disso.

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