segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Velho

Pegou a velha xícara azul, grande demais para seu chá, e serviu até a boca de café. Havia muito tempo que não a mexia, jurou nunca mais tomar café. Quase que transborda, ao olhar distraído para o retrado da sua velha, com os cabelos longos e olhar alegre. O rádio anunciava os desastres diários, mas ele desligou, pensando amargamente na vida que já era um desastre.

Morria de saudades do café que tomava com sua amada, todos os dias, na mesa que também nunca mais sentou para comer. Por isso jurou nunca mais fazer nada do que a lembrasse, mas na noite passada, a tristeza bateu forte, junto com as garrafas de uísque que virou goela a baixo. O fantasma de Dona Isabela apareceu mais vezes do que era costume, e já não dava mais.

Eram dias inteiros, seguidos de dias iguais aos anteriores, e sempre longos, O velho não saía de casa tinha meses. Os vizinhos lhe faziam as compras, ajudavam a pagar as contas, e ele não entendia o porquê de tanta gentileza prum velho que só sabia reclamar. Pensou que fosse um agradecimento pela doçura de sua Isabela. Ou fosse pena do velho covarde que se escondia dentro do casarão, vazio por dentro e por fora, num cômodo cheio de vácuos.


Foi ali na rua D, quase deserta e sem muitos vizinhos, que o velho viveu, sofreu e de lá nunca saiu. Morreu ali também, oito meses depois de sua amada Isabela tê-lo deixado só. Foi suicídio, seus remédios estavam todos lá, e ele não os tomou. Não quis mais viver. Dizem que foi fraqueza, covardia. O velho não queria mais viver. Para mim, pouco importam os detalhes da morte: o velho morreu de amor.

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