terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ao menos sei meu nome, eu não sei de nada e muito menos de mim


Aquela sala era fria. A luz dos dias nublados, que entrava pela janela, não era suficiente para iluminar todo o cômodo. As paredes brancas refletiam a luz que provinha das lâmpadas já desgastadas e sem a força que tinham quando foram colocadas. O chão de ardósia era escuro, e sempre estava sujo. Não era o cômodo em si que era ruim, ele até que era apropriado. Mas as pessoas com quem convivia me causavam arrepios. Todas as mesas e cadeiras direcionadas para o mesmo lugar: um quadro negro no qual letras e números eram colocadas e retiradas à medida que esgotava-se o espaço; daí, eram colocadas mais letras e números, e assim por diante. Mas aquele normalmente não era o foco para as pessoas que frequentavam a sala. Muitos vinham só para colocar a conversa em dia, ou recuperar o sono perdido, fazer rabiscos numa últma folha de caderno, ou atirar objetos na lixeira. Pessoas cheias de vida, cheias de sentimentos para transbordar a qualquer momento, rodeadas de amigos e histórias novas para contar. Todas tinham seus corpos perfeitos do jeito que eram, e seus cabelos certos, e sua pele de acordo com o que tinham para oferecer: suas almas.
E eu, que me julgava maior, nem alma tinha. Os olhos ficavam inchados de tanto chorar para dentro, e minhas mãos eram calejadas de tanto escrever o que eu não sabia sentir de fato. Minha pele tinha marcas de nervosismo, e meu cabelo desgrenhava-se com o vento. O meu corpo não parecia-se com um corpo feito para andar. À qualquer momento, eu sentia que ele poderia desmontar. Eu me sentia como uma boneca de plástico de camelot, sem vida e sem qualidade. Nada parecia certo em mim. As palavras me atingiam como balas de revólver, por mais que fossem em tons sorridentes e descontraídos. As palavras que eu mal sabia atirar, voltavam-se contra mim e me cortavam. Eu sempre tive medo dos lugares. Qualquer um que houvesse uma pessoa sequer, pronta a me analisar e reprovar-me.
Não sentia que eu poderia me encaixar. Eu já tive amigos, grandes amigos, mas eles se cansaram da monotonia e da falta de jeito, e encontraram seus grupos. E eu ainda procurava o meu. Eu tinha aqueles amigos que por mais que se preocupavam, eu não conseguia ver um pingo de atenção no que eu estava sentindo. Eles pareciam preocupados em perguntar, mas não queriam saber as resposta. Ninguém teria a solução. Toda vez que eu encontrava alguém para me segurar, eu me cansava de enganar seu coração. Eu não amava ninguém. E se não os tirasse logo da minha vida, eles é quem tirariam. E isso certamente doeria.
Porque eu me sentia tão vazia e, tão ridiculamente sozinha? Talvez fosse apenas minha maneira de ver o mundo e de não entendê-lo. Ironicamente, as letras e números colocadas e tiradas do quadro eram perfeitamente compreendíveis. E a vida e o mundo eram tão complicados. É complexo viver. Se pudéssemos apenas decorar e saber fórmulas ou regras para a vida lá fora, eu seria uma ótima “vivedora”. Devíamos ser ensinados a viver.
Mas eu não sinto que pertenço à esta cidade. E sinto que se for para as outras, também não pertencerei. Ao menos aqui tenho casa, tenho pais, que ainda que não me entendam, me aceitam bem. Ao menos aqui tenho um lugar para passar minha solidão. E eu nem quero imaginar como é crescer e ter de conquistar tudo isso só para mim, e perder a única zona em que me sinto confortável. Eu sou fraca e não sinto que poderei enfrentar o mundo. Eu não fui feita para viver? Qual a minha função neste mundo, neste lugar? Por que tenho que descobrir sozinha? Será que vou conseguir? Não sei.

(Ana F.)

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