Não era culpa de ninguém a minha cara emburrada. Não era nem culpa minha. Talvez fosse, em parte, já que eu não conseguia controlá-la. Talvez fosse, já que eu estava assim porque eu era sozinha, e ser sozinha era culpa minha. Talvez fosse, porque era minha culpa eu ter esse gênio idiota de não querer muita gente por perto, de ser tão seletiva, de ser tão quieta, de ser tão encolhida. Talvez fosse minha culpa, e eu só não queria admitir. E ninguém tinha nada com o meu mau humor sorrateiro.
Nos dias em que eu ficava assim, simplesmente me recolhia num canto qualquer e tentava ouvir minhas músicas, ou ler um livro, ou até escrever. O barulho dos lugares em que eu ficava me incomodava. O calor me incomodava, o frio congelava mais meu coração do que minha próprias mãos. As pessoas com quem eu tinha afinidade me pareciam chatas, e eu parecia insuportavelmente mesquinha aos meus olhos. Mas era como eu realmente ficava. Eu não tinha como controlar, eu acho.
Ainda tinha que ouvir pessoas dizendo que estava "naqueles dias". Infelizmente, não era. Não era na época. Era aleatório, haviam dias em que eu acordava ridiculamente triste, e haviam dias em que as pessoas os tornavam piores. Eu simplesmente acordava com vontade de não ter acordado, porque sabia que ninguém estava me esperando. Era isso que me deixava assim, saber que não havia alguém que gostasse de mim. Saber que do outro lado da rua ninguém estaria me esperando. Saber que não iria fazer diferença alguma se eu sumisse por alguns dias. Eu não tinha vontade de morrer, por favor não confunda. Eu só queria desaparecer, ir para algum outro lugar.
Era patética a forma que eu me sentia tão carente. Eu queria ser amada, ou pelo menos que alguém me quisesse. Eu queria que alguém quisesse me abraçar, que alguém sonhasse com o meu sorriso. Eu queria que eu fosse bonita aos olhos de alguém. Mas eu era assim: sozinha. E por isso eu ficava assim: emburrada. De cara feia e amassada. Por isso eu vivia com o coração guardado, todo empoeirado, esperando que alguém o quisesse. E eu também torcia para que algum dia eu pudesse enxergar alguém que sempre esteve ao meu lado, e eu nunca dei valor.
Ninguém tinha nada a ver com o meu coração enjoado.
(Anna)
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